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sexta-feira, 18 de abril de 2014

Na contramão do desenvolvimento

Recentemente os jornais noticiaram a queda de empresas brasileiras no ranking de investimento em inovação e em “pesquisa e desenvolvimento” (P&D), reiterando também que esses dados colocam o país na contramão da tendência mundial. Existe uma tendência natural de se vincular o investimento em P&D à inovação. Isso faz certo sentido, pois o objetivo primordial de P&D é gerar inovações baseadas em conhecimento especializado, que possam, por sua vez, gerar diferencial competitivo sustentável. Em outras palavras, a inovação gerada com P&D se diferencia de outros tipos de inovação pela magnitude e consistência do diferencial competitivo por ela gerado. Parafraseando a célebre frase do primeiro astronauta a pisar na superfície da Lua, seria como comparar um pequeno passo com um grande salto.

Entretanto, há sinais de que a notícia da queda das empresas no ranking represente um cenário ainda pior do que aquele que se evidencia à primeira vista, especialmente no que diz respeito à absorção, por parte das próprias empresas, dos resultados gerados em P&D. Para compreendermos isso, talvez seja necessário discorrer um pouco sobre o que é “tecnologia” e, assim, esclarecer também o termo “transferência de tecnologia”.

De acordo com definições consagradas, “tecnologia” se refere ao arcabouço ordenado de conhecimento empregado na produção e comercialização de bens e serviços, incluindo o de natureza científica, proveniente de todas as áreas da ciência, e o de natureza empírica, que é resultado de observações, experiência, atitudes específicas e até mesmo tradição oral e escrita. Assim, o termo “transferência de tecnologia”, ao contrário do que muitas vezes se imagina, não diz respeito apenas ao repasse de um produto tecnológico, mas também de todos os ingredientes necessários para sua obtenção, ou seja, o conhecimento técnico-científico, que é resultado de pesquisa científica, e fatores de produção, tudo isso necessário para se chegar ao produto tecnológico almejado. O objetivo primordial da transferência de tecnologia é, portanto, assegurar que o desenvolvimento científico e tecnológico seja mais amplamente acessível à sociedade.

Voltando então à questão principal, pergunta-se: qual é o grau de importância do parâmetro “investimento em P&D” para se adquirir o diferencial supramencionado? Ora, sem investimento em P&D, não há como gerar diferencial competitivo sustentável nos moldes daquele que estamos abordando aqui. Portanto, quanto maior o investimento, maior o potencial de resultados. Entretanto, há outro parâmetro igualmente importante nesta análise, a saber, o “grau de absorção de resultados” por parte do investidor. Dependendo da maneira com que se investe em P&D, é possível que o investidor esteja simplesmente doando recursos para a ciência, deixando de absorver os importantíssimos resultados auferidos no processo.

Uma vez que o termo tecnologia remete ao conhecimento e este, por sua vez, remete ao aprendizado, conclui-se que só se pode internalizar os resultados de P&D se se fizer parte do processo de aquisição do conhecimento. Não há como fazer transferência de conhecimento instantaneamente. Isso significa que investir em P&D não consiste apenas em injetar dinheiro em grupos de pesquisa ou em atividades externas de natureza científica. Significa também inserir-se na geração do conhecimento. Do contrário, os principais resultados (o grande salto) jamais serão absorvidos pelo investidor. Na contramão disso, o que se vê hoje no setor empresarial do país, em termos gerais, é o investimento equivocado em P&D, que muitas vezes é realizado devido a exigências de leis ou com o objetivo de obter benefícios fiscais. As empresas não participam da geração do conhecimento. Elas não têm tempo de aprender, pois estão focadas nas atividades operacionais vistas como o centro de seu negócio principal. A conclusão é que as ferramentas governamentais de fomento salvam a ciência no país, pois garantem a realização de pesquisas, mas não são suficientes para mudar a cultura empresarial de aversão ao conhecimento especializado, que provavelmente advém de fatores tais como a aversão a incertezas e a riscos intrínsecos, ou, em outras palavras, ao medo de não se obter o produto vislumbrado. O resultado é mostrado por notórias estatísticas: o país se destaca na produção de significativa parcela da ciência mundial, porém é fraquíssimo em inovação, relegando suas empresas a uma vergonhosa situação no cenário mundial.


quinta-feira, 17 de abril de 2014

Adonai Sant'Anna: Avaliação e Criatividade

Tive a honra de ter este texto publicado no blog do Prof Adonai Sant'Anna.



Adonai Sant'Anna: Avaliação e Criatividade: O texto abaixo foi escrito pelo professor Klaus de Geus , gerente de projetos de Pesquisa e Desenvolvimento na COPEL (Companhia Paranaens...

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Carga sociopolítica e sua natureza anti-inovação

Gostaria de traçar um paralelo entre a chamada "carga cognitiva" em sistemas virtuais de treinamento, tais como simuladores e games dedicados ao aprendizado, e aquilo que vou chamar de "carga sociopolítica" em uma organização empresarial. A primeira diz respeito ao esforço intelectual necessário para desempenhar as atividades que não estão diretamente ligadas ao processo de aprendizado, mas sim ao manuseio direto do sistema virtual. Quanto maior for a carga cognitiva, maior será a parcela de força intelectual que não é, de fato, utilizada para o aprendizado propriamente dito. Idealmente, um sistema virtual de treinamento deveria ter carga cognitiva nula para que todo o intelecto do aprendiz esteja focado naquilo que realmente interessa.

A carga sociopolítica de uma empresa é análoga à carga cognitiva, e diz respeito àquelas atividades que não se conectam diretamente à geração de valor. Normalmente a carga sociopolítica de uma empresa é alta quanto mais hierarquizada ela for, dando maior relevância a posições sociopolíticas. As tramas tribais que regem as atividades da carga sociopolítica desviam grande parte do intelecto existente na empresa para parâmetros que não trazem qualquer valor para a empresa e, portanto, fúteis. O exemplo mais comum de carga sociopolítica é constituído dos típicos enredos que acabam por determinar a divisão do poder na empresa, que normalmente se concretizam em alianças clandestinas de confiança e benefício mútuo, com intrínseco aspecto imoral. Afinal, aquilo que se faz escondido parece sempre se afastar da moralidade.

Da mesma maneira que no caso da carga cognitiva, parece natural que quanto maior for a carga sociopolítica em uma empresa, maior será a parcela de força que não será usada para os propósitos específicos inerentes aos seus negócios. As forças que regem a carga sociopolítica possuem uma característica agravante, a saber, a de prezar a estabilidade, uma vez que seus adeptos, com exceção de alguns possíveis esquecidos, quem sabe merecedores de algum castigo, estão confortavelmente gozando o ápice de suas medíocres carreiras (sim, medíocres, uma vez que posições são momentâneas e que, em contrapartida, obras permanecem), pelo menos até aquele momento. Ora, a estabilidade leva ao continuísmo e, este, por sua vez, lutará com todas as suas forças contra qualquer espécie de ameaça, tais como ideias provindas de mentes voltadas à criatividade e a gerar novas soluções. Assim, a carga sociopolítica se torna uma ferrenha inimiga da inovação.

A partir desse momento, as pessoas criativas que ainda tenham a determinação e a motivação para prosseguir em suas buscas começam a esmorecer, pois descobrem que estão lidando com forças que tornam a batalha desigual. Começam a perder as esperanças e, a partir daí, um processo de descrédito progressivo é iniciado, o qual não pode passar despercebido, e acaba por ser captado por outras mentes, minando ainda mais o potencial criativo da empresa. A tendência dessas pessoas, grandemente afetadas pela carga sociopolítica, é a de procurar a realização de seus empreendimentos alhures. Ao perder esse capital intelectual e empreendedor, a empresa se afunda ainda mais no ambiente tribal estabelecido.

As poucas que restarem, seja por determinação ou vã esperança na reputação da empresa onde trabalham, estarão sujeitas às ordens de incompetentes assoberbados, os quais farão de tudo em prol do controle, estipulando mecanismos de vigilância contra a desobediência e, portanto, contra o empreendedorismo. O empreendedorismo e a inovação são atividades de desobediência, de divergência e de antagonismo. São essas atividades que fazem as perguntas que normalmente não se querem ouvir. Este é o motivo pelo qual muitas empresas dizem querer buscar a inovação e ao mesmo tempo nunca estarão aptas para tal.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O primeiro passo para um ambiente voltado à inovação

Muito se tem falado em empresas de diversos setores sobre inovação. Aliás, muitas delas adotam discursos de que têm a inovação como meta, como se isso exercesse algum impacto positivo sob algum aspecto na imagem da empresa. Não obstante essa aparente busca das empresas por inovação, deve-se chamar a atenção para o fato de que ela não acontece por decreto. Muitos têm feito a tentativa de decretar que a inovação aconteça, porém sem sucesso.

Um dos principais motivos que dificultam a inovação em empresas é a cultura gerencial especialmente focada nos antigos preceitos da revolução industrial, os quais dão certo ar de "colonialismo". Neste pais, especialmente, essa conotação parece saltar aos olhos, pois são práticas adotadas em muitas empresas multinacionais que adentram o país a fim de desbravá-lo e remeter às suas origens a riqueza extraída. Essa cultura é baseada na forte organização hierárquica, a qual, por definição, é avessa ao extremo à inovação, pois seu contexto não permite o exercício de atividades que lhe dão sustentação.

Mas o que é preciso fazer para virar a mesa e iniciar uma cultura voltada à inovação? Um dos caminhos é criar, como primeiro passo, um ambiente piloto. O problema do ambiente piloto é que ele necessariamente deverá ser regido por diretrizes distintas ao restante da empresa. Mas talvez não haja como fugir disso. Pelo método de gestão adotado hoje na maior parte das empresas no país, simplesmente não é possível criar um ambiente voltado à inovação. Os muros hierárquicos devem ser derrubados. Não soa correto, em um ambiente inovador, alguém se referir a outrem como, por exemplo, "meu gerente" ou "seu gerente". Na verdade, não existe esse papel. Pode sim - e talvez deva - existir um líder. Líderes "acontecem" naturalmente em ambientes empreendedores. Esse tipo de líder é o oposto ao que conhecemos por gerente, pois ele está presente para ensinar, para abrir portas, ou seja, para servir. Esse tipo de valor está muito distante até mesmo da concepção na mente dos atuais gestores.

Quando a organização diz que tal pessoa é gerente de tal pessoa, decididamente não se está falando sobre pessoas criativas inseridas em um ambiente voltado à inovação. Pessoas verdadeiramente criativas e empreendedoras não têm gerentes. Elas mesmas são suas gerentes. Poder-se-ia argumentar que este é apenas um mero detalhe, e que as pessoas não devem se ater a pequenos detalhes, como se estivessem reclamando do assim chamado sistema. Mas não é um pequeno detalhe. Esse fato denota muito bem a estrutura organizacional da empresa e evidencia o fato de que ela está muito longe de alcançar sua provável meta de gerar inovações. Reitera-se: a inovação não acontece por decreto.

Indo um pouco além na questão da estrutura organizacional: que aspecto fica evidenciado ao se hierarquizar até mesmo o tratamento entre pessoas? Resposta: o controle. Se uma pessoa é gerente de outra, o que está acontecendo é que uma está controlando a outra, e a pessoa controlada não tem qualquer tipo de autonomia para empreender. Ora, sabe-se, e não há como negar, que o controle anda em direção oposta à criatividade. E se a criatividade é o principal ingrediente da inovação, conclui-se facilmente que esse ambiente é avesso à inovação. Uma pessoa criativa e empreendedora "debaixo" - de acordo com o jargão comumente usado nas empresas - de uma pessoa controladora está aos poucos sendo massacrada, e com ela está sendo desperdiçada uma oportunidade singular, para a empresa, de fazer algo novo. Em um ambiente inovador, não se pede autorização. Faz-se. O líder nesse ambiente, aos olhos de uma empresa cujo modelo de gestão é baseado nos preceitos da antiga revolução industrial, é um fraco, pois não manda nada. Entretanto, na realidade, o líder é aquele que sabe extrair das pessoas criativas e empreendedoras o máximo de sua capacidade. Como? Simplesmente encarando seu papel como a arte de abrir portas e injetar nas pessoas a motivação de que precisam para ir em frente em suas próprias obras. São elas que irão garantir a sobrevivência da corporação e, quem sabe, seu despontar como empresa inovadora.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Editorial da edição 19 da Espaço Energia - transferência de tecnologia

Os resultados oriundos de programas de P&D, não apenas no setor elétrico, têm chamado a atenção de empresas para o valor do investimento em conhecimento e tecnologia em longo prazo. A literatura científica relata diversos estudos realizados com o objetivo de analisar a eficácia de mecanismos usados para a realização de empreendimentos de P&D, dentre eles as parcerias entre o setor produtivo e a academia e centros de pesquisa. Segundo o artigo intitulado "R&D Venture: proposition of a technology transfer concept for breakthrough technologies with R&D cooperation: A case study in the energy sector", de S Hess e R Y Siegwart, de abril de 2013, a parceria constitui um modo prático de realizar transferência de tecnologia e explorar seu futuro mediante cooperação em P&D. O artigo realiza um estudo de caso focado no setor de energia, e recomenda a cuidadosa compreensão das diferentes perspectivas do conceito por parte da indústria, da academia e das parcerias propriamente ditas.

Mas antes de prosseguir na exploração das diferentes perspectivas do conceito de transferência de tecnologia, creio ser importante relembrar e discutir os significados de "tecnologia" e "transferência de tecnologia", segundo definições encontradas em glossários tais como o da FINEP e Wikipedia. O termo tecnologia se refere ao conjunto ordenado de conhecimentos empregados na produção e comercialização de bens e serviços, e que está integrado não só por conhecimentos científicos, provenientes das ciências naturais, sociais e humanas, mas igualmente por conhecimentos empíricos que resultam de observações, experiência, atitudes específicas e tradição oral e escrita. O termo "transferência de tecnologia" se refere à transferência de conhecimento técnico ou científico (por exemplo: resultados de pesquisas e investigações científicas) em combinação com fatores de produção, estando intimamente relacionado a "tornar disponível para indivíduos, empresas ou governos habilidades, conhecimentos, tecnologias, métodos de manufatura, tipos de manufatura e outras facilidades", com o objetivo de assegurar que o desenvolvimento científico e tecnológico seja mais amplamente acessível à sociedade.

Portanto, é possível que as perspectivas por parte das diferentes instâncias corriqueiramente impinjam alguma interpretação errônea. Por exemplo, é possível que a indústria ou mesmo a academia tendam a considerar tecnologia como um conjunto de ferramentais e, por consequência, transferência de tecnologia como a disponibilização de um produto acabado e funcional, excluindo o conhecimento envolvido. Entretanto, ambos os termos se referem a um arcabouço complexo que se inicia na obtenção do conhecimento. Ora, se o conhecimento é um dos ingredientes principais nesse contexto, como se faz para transferi-lo?

O grande desafio para a transferência de tecnologia e, portanto, de conhecimento se materializa no aprendizado. Para aprender, é necessário participar. O setor industrial deve, ao participar de um empreendimento de P&D, por exemplo, participar ativamente da geração do conhecimento, uma vez que esta remete diretamente ao aprendizado. Em outras palavras, o conceito inerente a muitos programas de P&D deve ser repensado. Em vez de transferir produtos desenvolvidos, deve-se promover a integração de todos os parceiros na geração do conhecimento. Entretanto, é notório que a cultura empresarial neste país, em sua maioria, repudia o exercício de atividades de P&D "por não gerarem benefícios práticos" e a cultura acadêmica, também em sua maioria, procura afastar a interação com o setor produtivo para não se contaminar com o foco exclusivo na prática. Ambas as posturas precisam ser revisadas. Os conceitos dos agentes de fomento também devem ser revisados, com o objetivo de promover a geração de tecnologia, ou, como exposto acima, a geração de conhecimento que pode, por sua vez, criar grande valor.

Assim, voltando ao ponto defendido pelos autores mencionados no primeiro parágrafo, a transferência de tecnologia mediante parcerias e cooperações em P&D é um assunto muito mais profundo do que tem sido percebido pela sociedade brasileira. Não se trata apenas de estabelecer um mecanismo para fazer fluir o conhecimento gerado na academia para atingir um produto almejado pela empresa, mas sim de uma interação em que ambos os conhecimentos, científico e prático, interagem como forma de criar tecnologia e, consequentemente, diferencial competitivo e excelência.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Falta senso crítico

Tenho ficado recentemente assustado e até mesmo estupefato com certos acontecimentos, certos procedimentos, certas decisões em contextos em que se esperava no mínimo uma pequena demonstração de competência. O que mais me assombra é que, ao analisar as pessoas envolvidas, parece não existir uma relação linear, ou mesmo polinomial, entre a competência formal, com base em seu histórico de formação, e a linha de pensamento por elas adotada. Posto isso, podemos lucubrar sobre os motivos para esse estranho comportamento.

A primeira conjectura é uma séria deficiência no processo educacional. As pessoas não conseguem exercer sua potencial inteligência porque não lhes foram ensinados os fundamentos do senso crítico. Em discursos de formatura, ouvimos (e às vezes proferimos) frases baseadas no conceito "mais importante do que saber as respostas é saber fazer as perguntas". Mas... será que temos aprendido a fazer perguntas na escola? Parece que não. Parece que o que realmente se quer é elevar os índices numéricos do país e chegar a um ponto em que possamos dizer para o mundo que aproximadamente 100% das pessoas têm curso superior. Claro, não estamos analisando o nível dos cursos superiores, pois, afinal, como podemos avaliar o nível de um curso superior se seus alunos não têm a base necessária para cursá-lo? Aliás, por que deveríamos nos preocupar com isso, pois o mais importante é o número, ou seja, a quantidade, e não a qualidade, não é mesmo?... Mas lembrem-se: os resultados falarão por si.

Estamos baixando o nível do ensino sob o pretexto da inclusão. O ensino deve se dar desde o nascimento. Isso, sim, é inclusão. Todos devem ter acesso, se possível, às mesmas oportunidades de crescimento. Entretanto, as pessoas diferem umas das outras. Em qualquer país desenvolvido, formam-se em curso superior apenas aqueles que adquiriram, de acordo com critérios pré-estabelecidos, sem entrar no mérito de sua pertinência, a capacidade para se formar e exercer a respectiva profissão. Ao forçar pessoas a serem o que não são e nem devem ser, estamos injetando em suas mentes respostas prontas, porém estamos também muito longe de ensiná-las a fazer perguntas. E o diferencial da competência é justamente esse: saber fazer perguntas, ou seja, senso crítico.

Agora vamos imaginar que o problema da educação não exista. O que poderia fazer com que as pessoas em papeis de liderança fugissem de sua responsabilidade de pensar? Por que temos visto neste país tantas estratégias equivocadas, tantos erros de gestão, tantas coisas mal feitas, enfim, tantos fiascos? Por que as pessoas têm esquecido de pensar? Vem-me à mente a saga "Star Trek" e a célebre frase dos "Borgs": "Resistir é inútil. Você será assimilado". A partir daí a pessoa passa a ser apenas uma peça no maquinário, teoricamente para o bem de todos. Hoje em dia, vemos as pessoas assimiladas pela força vigente, que preconiza a ignorância, a carência de um mínimo de qualidade, a prática destituída de teoria, o "sair fazendo" destituído de conhecimento, o repetir destituído de senso crítico.

Parece que todo mundo está entorpecido pelo poder. Ou parece que todo mundo está simplesmente entorpecido. Parece que não é mais permitido pensar. Parece que todos realizam uma atividade adotando certo procedimento porque foram assimilados para tal. Ninguém questiona. A desculpa mais ouvida para se defender uma ação absurda é que, apesar de parecer irracional, é necessário. O resultado é mais importante do que o conceito. Mas será que o resultado vai ser mesmo alcançado? E assim são desperdiçados os recursos que deveriam ser empregados para o bem da sociedade. As pessoas de bom senso vão pagando um preço alto demais  para viver em sanidade. Os honestos pagam a parcela dos que sonegam imposto, os que se  esforçam pagam a parcela dos que não se esforçam, a sociedade paga a conta da corrupção porque ela é, no fundo, considerada normal, os que apreciam sair para jantar com a família e beber um cálice de vinho pagam por aqueles que fazem da bebida uma arma. Isso é irracional. Isso é falta de senso crítico. Mesmo assim é normal.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Editorial Espaço Energia 18 - Redes de pesquisa exigem vínculos perenes

Em seu comunicado número 152, de 2012, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) analisa as interações entre instituições acadêmicas e as empresas do setor elétrico no contexto do desenvolvimento de projetos de P&D. Nas conclusões, é mencionado o fato de que as estruturas de P&D das empresas ainda são fortemente voltadas aos requisitos burocráticos do programa. O estudo intitulado “P&D nos setores público e privado no Brasil: complementares ou substitutos?”, de Velho, Velho e Saenz, de 2004, defende que, apesar do incentivo à interação entre os setores acadêmico e empresarial, focado em empreendimentos específicos, não há investimento por parte das empresas, de modo geral, em infraestrutura própria de P&D. Com isso, os vínculos não se tornam perenes e, portanto, a formação de redes de pesquisa de caráter duradouro é prejudicada.

Um olhar informal sobre essa informação e sobre outras publicações recentes no tema permite-nos concluir que falta no setor empresarial uma postura mais ousada quanto a P&D. Seu principal resultado, que é o conhecimento gerado, que pode levar à aquisição de diferencial competitivo sustentável, normalmente deixa de ser assimilado pela empresa, devido à fragilidade do mecanismo de interação. Em outras palavras, a empresa deixa de se apropriar do principal resultado do P&D, porque não participa efetivamente da geração do conhecimento.


“Construir a ponte sobre o abismo existente entre a academia e a indústria” exige uma nova postura de gestão. O principal motivo para isso é que empreender P&D com vistas à inovação constitui uma atividade distinta das demais atividades empresariais, repleta de incertezas, e para as quais não há domínio de todo o conhecimento envolvido. Do contrário, não haveria geração de conhecimento. Métodos tradicionais de gestão tendem a afastar incertezas e minimizar riscos, e assim agem em direção oposta à natureza de atividades de P&D.


O setor industrial brasileiro e mundial tem muito a ganhar com a interação com o setor acadêmico, especialmente em mercados dinâmicos, onde a inovação passa a ter papel fundamental para a sustentabilidade das empresas. Uma nova postura empresarial em que a empresa efetivamente participa dos trabalhos baseados em conhecimento especializado e na criatividade científica será essencial para que esses ganhos possam enfim se concretizar.


Muitos serão os benefícios dessa nova postura ao país, mas o principal deles constitui-se em inovações para as quais o país já possui ingredientes suficientes, e que permitirão colher os frutos de seu próprio investimento. Porém, para chegar a essa nova postura e colher esses resultados, é necessário quebrar paradigmas, pensar diferente, testar novas configurações, promover experimentações e, enfim, valorizar a criatividade. O primeiro passo é deixar de tentar realizar atividades de diferentes naturezas usando sempre as mesmas técnicas.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

O meio-fio


Recentemente tive oportunidade de fazer uma visita a um país do dito "primeiro mundo". Dessa vez, foi uma viagem de turismo, com toda a família. Ao chegar lá, quis demonstrar ao meu filho mais velho as diferenças entre nosso país e aquele país desenvolvido. Poderia já ter mencionado coisas no próprio aeroporto, já que a diferença de qualidade nas coisas é simplesmente gritante. Mas resolvi esperar chegar até a rua. Para enfatizar a diferença de qualidade, elegi uma coisa muito simples para comparação, esperando com isso fazê-lo entender que, se um elemento simples daquele era tão melhor naquele país, poderíamos facilmente imaginar o quanto seriam as outras coisas. Assim, elegi o meio-fio. Mostrei para ele o meio-fio, e ele ficou olhando e sorrindo. Tinha tanta coisa tão melhor para ser vista, e nós ali observando o meio-fio.

A partir daí iniciamos uma troca de ideias a respeito da diferença de qualidade na infraestrutura, nos serviços, enfim, em tudo. Não demorou muito para fazermos a pergunta: "por que não podemos ser assim também?". Depois de algumas argumentações, chegamos à conclusão que a primeira e primordial diferença, após observar a postura das pessoas naquele país, é que as pessoas desejam ser as melhores em cada coisa que fazem. Elas não querem ser "meia-boca". Ser meia-boca não é aceitável. Jeitinho? Definitivamente não!

Outra característica marcante é a qualidade de seus sonhos. Daí começam a vir à mente acontecimentos da história recente, ou pelo menos não tão remota. "Nós iremos à lua". Desculpem, acabei de revelar qual é o país. Mas também não era tão segredo assim, era? Que loucura de sonho é esse? Alguém da retaguarda retrucante argumentaria: "mas, afinal, para que ir para a lua?". Sim, para que? Simples, para obter conhecimento para fazer muitas outras coisas extremamente importantes, das quais essas pessoas raramente se dão conta, e cujos impactos em nosso dia a dia elas minimizam, como se fossem coisas fúteis.

Quando se trata de adquirir conhecimento para o bem da humanidade, não há empreendimento inútil. E quem realiza o investimento é quem adquire domínio sobre o conhecimento gerado e, principalmente, sobre os benefícios dele advindos. Se pudermos estender um pouco essa ideia, o conhecimento é fruto do sonho, que muitas vezes parece coisa absurda, tão absurda quanto ir à lua.

Infelizmente, em nossa terra, nós nos contentamos com o que temos. As coisas normalmente servem para seus propósitos, ou quase servem. Está bem, às vezes nem para seus propósitos servem. Por que? Porque nós nos contentamos com pouco. Meia-boca para nós está mais do que bom. Afinal, para que ser o melhor do mundo? Para que ter as conquistas mais relevantes do mundo? Para que ser reconhecido como a maior potência do mundo?

Conclusão: Enquanto este país não adquirir uma nova postura, a postura do sonho, da qualidade, da realização, do querer ser o melhor possível, não seremos mais do que coadjuvantes. Teremos casas, carros, pontes, estradas, telefones, computadores, tecnologia, serviços, saúde, qualidade de vida, tudo meia-boca. Quando estaremos em condições de ser o melhor possível? Poderíamos eleger um parâmetro de comparação bem simples: o meio-fio.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Editorial Espaço Energia 17 - Inovação tecnológica - movimento e postura


Temos visto no país, ultimamente, um movimento significativo em prol da inovação tecnológica. Isso tem sido evidenciado por diversas iniciativas do setor empresarial, mediante a realização de eventos com base na interação com o setor acadêmico, e também do setor governamental, com a instauração de leis de incentivo federais e estaduais. Um dos principais objetivos desse movimento é fazer o país despontar como detentor de competência baseada no conhecimento especializado e na criatividade na concepção de soluções.

As experiências nesse contexto, entretanto, levam à identificação de pontos que precisam urgente atenção, citados a seguir, não necessariamente em ordem de importância. A primeira delas é a equiparação de postura por parte dos setores responsáveis pela gestão de recursos, cuja mentalidade ainda se mostra na contramão da inovação. A segunda é a educação, cuja prática ainda preconiza o aprendizado unidirecional, em que o professor, detentor do conhecimento, procura transmitir seus ensinamentos aos alunos, porém, na maior parte dos casos, sem promover interação. Modelos modernos fazem maior uso da pesquisa, da interação, da complexidade e da retroalimentação. A terceira, e por ora última, é a dificuldade de interação existente, de um modo geral, entre os dois setores, academia e indústria, recorrentemente mencionada nos editoriais deste periódico.

Fóruns focados na interação entre os dois setores com vistas à fundamentação de empreendimentos de P&D e de inovação tecnológica, apesar de terem promovido a evolução da postura de cientistas e empresários nos últimos anos, ainda encalham no mesmo problema: empresários buscando soluções pontuais ao invés de investir na produção de conhecimento especializado como forma de adquirir diferenciação competitiva sustentável e cientistas procurando financiadores para projetos que visam apenas à produção acadêmica, estabelecimento de infraestrutura e bolsas para alunos. Além disso, ainda são evidentes distorções na prática de grupos de pesquisa que lutam entre si, ao invés de se unirem em torno de um fim mais nobre.

Não obstante tudo isso, o país tem demonstrado ao mundo seu potencial, pois é hoje responsável por parcela significativa da produção intelectual. Mais cedo ou mais tarde chegará o tempo em que o país saberá colher os frutos de seu investimento. A interação entre os dois setores é essencial. De um lado, a academia fazendo uso de seu conhecimento especializado para trazer benefícios práticos à sociedade. De outro lado, a indústria investindo em P&D, e dele efetivamente participando, não apenas para obter um resultado concreto, como um produto, mas principalmente o conhecimento especializado, como forma de diferenciação sustentável e emancipação.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Editorial Espaço Energia 16 - Reflexões sobre P&D no setor elétrico brasileiro


Em primeira mão, publico neste blog o principal trecho do editorial da edição 16 da revista Espaço Energia, prevista para maio de 2012.

A União Europeia elabora anualmente um relatório, intitulado “Industrial R&D Investment Scoreboard”, que contém dados importantes relacionados ao investimento em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) de empresas em contexto mundial e segmentadas por suas áreas de atuação, além de outras informações econômicas e financeiras referentes aos quatro últimos anos fiscais. Na mais recente publicação, do ano de 2011, que apresenta informações relativas ao ano de 2010, são listadas ao todo 1400 empresas classificadas pelo seu investimento total em P&D. Desse total, 400 empresas têm sede nos Estados Unidos e 1000 em outros países. A empresa no topo da lista investiu 7.181,11 milhões de Euros, enquanto que a última da lista investiu 30,70 milhões de Euros.

As empresas do setor elétrico constantes no relatório somam vinte. A primeira dessa lista investiu 520 milhões de Euros, correspondentes a 4,7% de sua receita operacional líquida (ROL). A última dessa lista, por sua vez, investiu 34,30 milhões de Euros, correspondentes a 0,2% de sua ROL. Deve-se notar, entretanto, que essa pequena lista de vinte empresas do setor elétrico contém duas empresas cujo valor de investimento, apesar de significativamente maior do que 30 milhões de Euros, corresponde a 0,1% de sua ROL. Digno de nota também é o fato de apenas quatro dessas empresas possuírem investimento em P&D igual ou maior do que 1,0% de sua ROL.

Lançando um olhar analítico para a situação do setor elétrico brasileiro quando comparada com os números supramencionados, alguns questionamentos podem vir à tona, os quais merecem certa reflexão: Qual é a situação geral dos investimentos em P&D, abrangendo os de natureza compulsória e os empreendimentos espontâneos? Considerando a hipótese de que o programa de P&D compulsório e regulado pela ANEEL abarque os maiores investimentos do setor, quais são os efeitos dessa regulação sobre os empreendimentos dessa natureza? Qual é o papel do programa de P&D regulado? Seria ele o grande (e talvez o único) catalisador da inovação no setor elétrico? Quais são os passos necessários para que o país se torne independente de regulação no que tange a investimentos em P&D, e adquira uma visão de longo prazo, visando ao desenvolvimento e, em última análise, à inserção do país como líder tecnológico nesse contexto? Quais são as estruturas que devem ser mudadas para que isso aconteça? Qual é o grau de real contribuição que um programa de P&D regulado pode dar ao país? Os diferenciais competitivos alcançados e as inovações geradas em seu contexto são significativos em relação aos empreendimentos espontâneos? Seria a distância entre a academia e o empresariado maior no Brasil do que em outros países mais desenvolvidos? Se sim, o que pode ser feito para que essa postura mude? Qual é o impacto do processo de fiscalização sobre o grau de ousadia que uma empresa, uma instituição ou um grupo de P&D pode ter em determinado empreendimento? Estariam as outras instâncias envolvidas, de caráter de fiscalização, preparadas para lidar com a ousadia de determinados empreendimentos e com a natureza muitas vezes intangível de resultados obtidos, mas que no entanto contribuam para um diferencial competitivo sustentado ao longo do tempo?

Considerando que o investimento em P&D por parte de uma concessionária de energia, de acordo com o programa regulado pela ANEEL, varie entre 0,4% e 1,0% de sua ROL, e que apenas quatro empresas constantes no relatório supramencionado fazem investimentos iguais ou maiores do que 1,0% da ROL, qual é a estratégia mais adequada para que o país adquira uma posição mais privilegiada no tocante à inovação? Aumentar o nível de investimento? Fomentar o desenvolvimento de empreendimentos espontâneos e privilegiar resultados obtidos nesse contexto? Privilegiar o usufruto de diferenciais competitivos alcançados por projetos de P&D, de tal maneira que sua qualidade aumente, gerando um maior número de inovações?

É necessário progredir nas estratégias que visam ao desenvolvimento do país e, em particular, do sistema elétrico brasileiro, uma vez que se torna clara certa discrepância entre as metas governamentais e dos vários setores da sociedade. Mais do que nunca, é hora de consolidar uma estratégia de cooperação entre os diversos componentes desse intricado quebra-cabeças.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Perda de tempo

A sensação de desperdício de potencial humano que me atormenta vem tomando proporções avassaladoras em minha mente, à medida que o tempo passa e os resultados dos empreendimentos nos diferentes âmbitos de minha jornada vão se consolidando e se evidenciando. Percebo o mesmo efeito na vida de outras pessoas que não apresentam uma postura e um comportamento do tipo "acomodado". Essas pessoas muitas vezes fogem do emprego como ele é normalmente conhecido em nosso meio. Muitas vezes tomam um rumo, como é frequentemente chamado, empreendedor. Entretanto, não devemos confundir a acepção que se refere ao tipo de trabalho, ou seja, deixar o emprego CLT e abrir um negócio, com a acepção que se refere ao empreendedorismo propriamente dito, que se caracteriza pela inquietude, pela rejeição ao comodismo, e, como não poderia deixar de ser, pelos empreendimentos consolidados e evidenciados, gerando resultados.

Empresas geridas pelo modelo industrial ainda hoje preconizam o controle do tempo como forma de garantir a eficiência do trabalho, o que, na era do conhecimento, caracteriza uma grande ilusão. Ao invés de "comprar o tempo das pessoas", as empresas que fazem uso do grande potencial intelectual das pessoas compram seus serviços, os benefícios trazidos por sua motivação, que é o motor de seu empreendedorismo. Há ainda outras empresas, em número ainda menor, que, além de usar o potencial intelectual, torna possível o uso do potencial criativo das pessoas, o que lhes confere a possibilidade de se sobressair em seu contexto, criar novos mercados e adquirir diferencial competitivo realmente sustentado.

É inconcebível que empresas hoje percam seu precioso tempo em tarefas administrativas de controle de tempo. E o pior é que essas tarefas administrativas não estão restritas ao pessoal administrativo. Pelo contrário, a maior perda de tempo é das próprias pessoas que necessitam solicitar abonos, justificar falta de registro de frequencia, acertar erros gerados pelo sistema, aguardar dois minutos na frente do relógio ponto para que o registro não se caracterize como irregular, armazenar na memória a hora exata em que registrou sua saída para que sua subsequente entrada não se dê em momento anterior ao que deveria. Todas essas atividades são aquelas que ocupam boa parte da mente e do tempo das pessoas que poderiam estar produzindo, pensando em perguntas, descobrindo respostas, criando soluções.

É notório que o rendimento das pessoas empreendedoras é inimaginavelmente (para usar um termo informal mas efetivo) maior onde elas têm liberdade para empreender do que no ambiente em que o que importa é o controle de seu tempo. Como empreendedoras que são, elas percebem a diferença de postura, a diferença de motivação que têm para desempenhar suas diferentes atividades, em seus respectivos contextos. Na empresa, o ambiente se torna pesado, fazendo-as sentir que o que a empresa deseja é que elas simplesmente estejam ali, de corpo presente. Tanto faz onde a mente está. O desempenho não importa. As soluções criadas são inúteis se a falta de registro de frequência não for justificada. Criar uma solução sem provar que estava presente proporciona à pessoa empreendedora a falta do pagamento que lhe é devido.

Vivemos na era do conhecimento. Quem sabe estejamos entrando na era da criatividade, para a qual não se conhece mecanismo de gestão, e nem sequer o seu mecanismo de funcionamento. Mas isso tudo é secundário. O importante é bater o ponto.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O efêmero sobrevivente e o verdadeiro expoente - a gestão por competência

Em plena era do conhecimento, os métodos de gestão adotados pelas empresas continuam insistindo em estruturas organizacionais com foco na área de aplicação em detrimento de um melhor aproveitamento do estoque de conhecimento que elas, sem saber ou pelo menos sem dar a devida atenção, detêm. Dessa maneira, prossegue a tendência de organização das áreas meio, por exemplo, na forma "a área 1 atende às demandas da área A e a área 2 atende às demandas da área B".

A estrutura organizacional hierárquica tende a incutir nas pessoas que detêm cargos a ilusão de poder sobre seus subordinados. Na era do conhecimento, entretanto, esse tipo de poder vem perdendo espaço. À medida que as gerações passam, o poder do conhecimento adquire maior importância, fazendo com que as pessoas o respeitem cada vez mais e o busquem com cada vez maior dedicação, dando menor importância ao aparente poder que cargos provêm.

Em um modelo organizacional altamente hierárquico, pessoas dotadas de poder advindo de cargos se apegam ao fato de que seus subordinados estão à sua mercê, e devem fazer tudo aquilo que mandarem. Porém, cresce a postura, especialmente nas gerações mais novas, de que tais ordens devem ser analisadas, para saber se vale ou não a pena segui-las, em detrimento de qualquer que sejam as consequências, trazendo um dinamismo maior às estruturas de trabalho.

Na gestão por competência, as relações hierárquicas se enfraquecem, dando lugar à oportunidade de aproveitar o estoque de conhecimento da empresa, alocando pessoas em atividades de acordo com sua competência e interesse. Adquire-se assim um diferencial competitivo importante, com base no conhecimento especializado e na motivação, o que desloca a ênfase dada ao formalismo processual para o valor pessoal. Nesse modelo, não importa mais que área atende a que área. Projetos são elaborados e desenvolvidos por equipes dinâmicas e competentes. Constituem-se grupos especializados, com liderança devidamente capacitada no conhecimento, de modo a grandemente aumentar as chances de sucesso.

Esse cenário, infelizmente, ainda não se mostra como realidade na maioria dos ambientes empresariais. Aqueles visionários que conseguem enxergar o potencial do conhecimento aliado à motivação tirarão grande proveito, o que lhes permitirá passar de efêmeros sobreviventes a verdadeiros expoentes.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Mudar o mundo

Às vezes eu me pergunto qual é a diferença fundamental entre pessoas ou empresas que exercem real impacto no mundo e aquelas que pensam ou existem aparentemente por conta de propósitos econômicos. Estou convicto de que a diferença realmente existe, uma vez que o propósito se evidencia nas linhas de ação tomadas. Normalmente as empresas que se enquadram no primeiro tipo nascem de pessoas visionárias, que desejam fazer algo de valor. A Apple, por exemplo, na visão de seu líder Steve Jobs, desejava simplesmente transformar o mundo por intermédio da tecnologia. E conseguiu. A ironia é que os websites desse tipo de empresa normalmente não fazem uso do tradicional artifício de explicitar sua missão e sua visão, como o faz o segundo tipo de empresas, que normalmente dizem que sua visão é ser, em um número menor possível de anos, a melhor empresa do setor. As empresas do primeiro tipo não precisam ter essa visão. A visão de transformar o mundo lhes basta. Afinal, é tão simples transformar o mundo...

Esse tipo de pensamento nos leva também a pensar no papel do sonho e da realização pessoal no contexto empresarial. O tipo de pessoa sonhadora normalmente tem dificuldades no ambiente empresarial tradicional, pois é vista como alguém desconectado do mundo. Já ouvi várias vezes frases do tipo "esse cara viaja" e "é um lunático". Um dos refúgios dos críticos a pessoas sonhadoras é rotulá-las como teóricas. Na verdade, esses críticos não levam em conta a teoria - e muito menos a imaginação - em suas ações. Os sonhadores, por sua vez, imaginam, e usam a teoria para dar base às suas ações. No fundo, uns buscam transformar o mundo, colocando a imaginação e a teoria como sustentação para ações que possam contribuir com esse nobre fim. Outros buscam refúgio na tentativa de sistematização do conhecimento, na "intocabilidade metodológica" como forma de garantir a continuidade da situação.

Uma coisa que tenho notado nesse tipo de ambiente é a turbulência que as pessoas sonhadoras exercem na situação sustentada pelo metodismo (não estou falando de religião). Em empresas sobreviventes tradicionais, a gestão é voltada à garantia de continuidade, ao método intocável e à minimização de riscos. Sonhadores representam uma ameaça brutal a essa tríade. Dessa maneira, empreendimentos vislumbrados por sonhadores e fundamentados no binário teoria-imaginação são veemente e camufladamente atacados pela gestão, na tentativa de aniquilar qualquer turbulência que implique aumento de risco. Os argumentos usados para justificar a reprovação de propostas sonhadoras normalmente não têm pé nem cabeça, e as sessões de julgamento parecem isentas de qualquer lógica, o que acaba por afetar, aos olhos dos sonhadores, a reputação daqueles que manifestam tais argumentações.

Os impactos desse tipo de repressão à inovação são diversos, a começar pela desmotivação e o descrédito por parte dos proponentes, o que causa a diminuição do potencial de inovação na empresa. Isso, por sua vez, traz sérios riscos relacionados à sobrevivência da empresa, e o destino obscuro tão temido pela gestão acaba se concretizando. O que está errado nesse processo? É justamente a falta de compreensão de que a saúde da empresa é hoje representada especialmente por sua capacidade de gerar o novo, de se questionar e mudar.

Sob o ponto de vista dos empreendedores sonhadores, a situação se torna insustentável. O que acontece na prática é que, "vestir a camisa da empresa", como ainda hoje se requer pela gestão, se torna uma tarefa impossível, já que o tamanho dessa camisa é PP. Recentemente ouvi uma preleção que dava a entender que o profissional deveria se confundir com a empresa. Para os sonhadores, isso até é possível, se a missão da empresa onde trabalha fosse "mudar o mundo". Caso contrário, eles estarão cada vez mais desconectados, já que ninguém pode segurá-los.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O mal

O mal é inerente ao ser humano. Porém há aqueles que realçam seu relacionamento com o mal, usando-o como arma para fazer conquistas. Algumas vezes o uso do mal não é exatamente percebido pelo seu portador. Outras vezes parece ser coisa do subconsciente. Mas há casos em que o mal trabalha explicitamente na estratégia pessoal. Sem nos atermos à origem desse fenômeno, podemos perceber seu impacto em todos os ambientes, inclusive no ambiente de trabalho, profissional e até mesmo acadêmico. Afunilando ainda um pouco mais nossa análise, abordemos a questão da inovação e do empreendedorismo no ambiente de trabalho. Qual é normalmente o perfil dos empreendedores? E seus interesses, a que estão alinhados?

A resposta parece simples. Empreendedores são normalmente pessoas sonhadoras, que desejam realizar em detrimento de acumular riquezas excessivamente, não obstante o fato de uma coisa não implicar a outra. As pessoas do mal (vamos chamá-las carinhosamente assim) não têm interesse em realizar sonhos. O que importa para elas é o sentimento de poder, seja ele trazido por riquezas, seja ele trazido pela percepção de mandar ou subjugar pessoas. Tem sido assim desde a fundação do mundo.

O que mais me intriga é que tudo isso que escrevi até agora parece coisa do passado, algo ao qual deveríamos já estar imunes. Mas não. O mal continua reinando na sociedade, e traz muitos prejuízos às pessoas e, especificamente, ao foco deste texto: o ambiente de trabalho. Ao analisar o mal na empresa, percebo que ele se aflora quando é dirigido aos empreendedores, pois estes tendem a ter uma postura ingênua no tocante a possíveis ciladas de caráter pessoal. Eles normalmente não vêm o mal nas pessoas. Em muitos casos, até mesmo recusam-se a acreditar quando são informados sobre sua ocorrência.

O mal, uma vez domiciliado no interior de uma pessoa, perpetua-se mediante a afinidade e a atratividade que faz aflorar entre si os portadores de tal peste. Um jogo permanente de interesses estabelece um vínculo entre aqueles que fazem o mal, o que facilita sua escalada ao que chamam de poder. Ao chegar ao poder, veem os sonhadores, empreendedores e lunáticos como aqueles que lhes podem ofuscar o brilho. Assim, conscientemente, ou subconscientemente, ou mesmo inconscientemente - pouco importa como - eles os massacram psicologicamente, tentando roubar-lhes aquilo de que não podem abrir mão: sua dignidade. Matam assim a criatividade, por meio do controle e do exercício do poder aparente.

Perpetua-se assim a mediocridade, a mesmice e, por fim, a pobreza de espírito. O mundo, em vez de se voltar às realizações que trazem o bem, volta-se ao mal, que ardilosamente procura retirar os benefícios da sociedade e transferi-lo para seus portadores. O ambiente de trabalho, em vez de se tornar propício às realizações que trazem valor, torna-se o palco de uma batalha velada, cujo vencedor não existe. E o que acontece com os sonhadores lunáticos? Continuam sonhando e realizando. Onde? Remando contra a correnteza, no mesmo lugar ou alhures.

sábado, 11 de junho de 2011

Remando contra a correnteza

Um dia eu vi um artigo na revista The Economist sobre os empreendedores brasileiros. O autor dizia que se você estivesse sentado a uma mesa no Sushi Bar, em São Paulo, não iria demorar para escutar, vinda de uma mesa vizinha, uma discussão sobre como iniciar um empreendimento para produzir energia a partir de alguma planta inusitada, ou então alguma ideia original para livrar a classe média do país de seus baixos salários.

O Brasil realmente não carece de pessoas inovadoras e empreendedoras. Segundo um estudo feito por uma instituição de renome, os empreendedores brasileiros apresentam um comportamento bem diferente de seus companheiros da Rússia e da China. A principal diferença entre os empreendedores desses países é que os brasileiros aparentam ter um apetite bem menor a riscos.

O estudo se aprofunda para averiguar o porquê dessa característica peculiar do empreendedor brasileiro, chegando à conclusão de que o motivo consiste no fato de que esses empreendedores correm em sua vida de negócios riscos muito maiores do que aqueles que vivem nos outros dois países, ou em qualquer outro lugar do planeta.

Começar um negócio no Brasil leva 152 dias e requer 18 processos diferentes. Um negócio de médio porte necessita de 2.600 horas de trabalho para pagar seus impostos anuais. O mesmo tipo de negócio pagaria 69% de seu lucro em impostos no segundo ano.

O que determina o bom empreendedorismo no Brasil é a habilidade de navegar pela burocracia. Eduardo Gianetti da Fonseca, entrevistado pela revista, diz, ao final, que, se o Bill Gates tivesse começado a Microsoft em uma garagem no Brasil, ela estaria ainda hoje na garagem. O artigo é concluído com a seguinte frase: “Mais difícil de entender por que os empreendedores brasileiros são como são é entender por que eles, afinal de contas, existem”.

Ao terminar de ler esse artigo, eu não sabia se devia ficar feliz ou se triste e preocupado. Talvez eu devesse ficar feliz. Por quê? Ora, é fato notório que o Brasil, apesar de toda sua potencial criatividade, não produz inovação como poderia. O motivo para isso poderia ser mais grave, por exemplo, a falta de imaginação de nossos profissionais, ou a falta de disposição em empreender.

Mas não é isso, felizmente. O problema é cultural. Tudo bem, problemas culturais levam tempo para ser resolvidos, mas podem ser resolvidos. Basta atitude.

A pergunta que permanece é: Quando o país vai acordar e perceber que sua atitude autofágica o está destruindo aos poucos? Existe algo pior do que ter potencial e não saber aproveitá-lo?

Os métodos governamentais devem ser urgentemente revistos. Nossa postura deve mudar. Precisamos entender que, para se empreender, abre-se mão de certo conforto inicial, corre-se um risco que pode ser significativo, mas com o tempo os frutos poderão ser colhidos. A lei brasileira não foi feita para a inovação.

As agências de fomento à inovação precisam experimentar outros caminhos. Seus gestores precisam compreender que o processo de criação é mais de imaginação do que de organização, e que o processo de inovação tem aí o seu princípio. É preciso diminuir o controle, a burocracia, e premiar as ideias inéditas, assim como os resultados inovadores.

Mas não é só o governo e suas instituições que devem mudar. O método de gestão adotado pela maioria das empresas brasileiras tem sua herança na revolução industrial, e está atrasada mais do que o país pode suportar. É hora de acordar. É hora de mudar.

Extraído do livro "mentes criativas, projetos inovadores" - Klaus de Geus - "crônicas corporativas" ao final do capítulo 9, página 191.

domingo, 20 de março de 2011

Gestão de empresas, inovação e bossa nova

Gosto não se discute. Mentira. Gosto é uma questão de cultura, de busca, de muito esforço. A capacidade de apreciar um bom vinho não cai do céu. É fruto de tentativas e refinamentos. É algo relacionado ao juízo sintético, do filósofo Immanuel Kant, ou seja, é fruto da experiência. A bossa nova, legítimo fruto da cultura, intelectualidade e criatividade brasileira, não surgiu do nada. Foi preciso um longo caminho para se chegar lá. A bossa nova incorpora riquezas inusitadas, inovadoras, que muitas vezes causam estranheza aos ouvidos menos preparados. Sua harmonia e seus acordes dissonantes lhe conferem uma assinatura única, apreciada pelos mais eruditos músicos do mundo.

Com todas essas características desenvolvidas, a bossa nova pode parecer algo "desafinado" (fazendo alusão à grande obra de Tom Jobim e Newton Mendonça) para os ouvidos acostumados apenas com os estilos mais populares, para os que ouvem aquilo que é padrão, aquilo que é perfeitamente redondo. Para esses ouvidos, não há espaço para refinamento, já que se usa a justificativa de que gosto não se discute. Nada parece ser mais correto do que aquilo que sempre se ouve, uma vez que o óbvio reina absoluto.

Mas o que é que a bossa nova tem a ver com a inovação ou a gestão de empresas? Tudo. O que acontece na mente dos gestores é exatamente aquilo que acontece com aqueles cujos ouvidos não experimentam o refinamento. Fala-se em fazer diferente e em inovar, usam-se jargões do tipo "agregar valor" e "alcançar diferencial", porém não se experimenta, não se arrisca, e foge-se do incerto, dos desafios que envolvem o desconhecido. Ora, inovar é justamente fazer algo novo, onde pelo menos alguma coisa é incerta. Como se pode inovar sem se lançar no incerto?

No mundo empresarial brasileiro, pessoas criativas são normalmente vistas como acordes dissonantes. O questionamento por elas trazido à tona é normalmente refutado, pois as coisas já estão funcionando e não necessitam de palpites de sonhadores. Suas ideias não soam consonantes, e causam desconforto aos ouvidos menos preparados. O crescimento lhes é negado, pois não têm o perfil julgado necessário. A mente do gestor, assim como a mente do profissional em geral, ainda não se apercebeu da complexidade do pensamento humano. O mundo empresarial ainda não está preparado para lidar com as questões atuais, que adquirem cada vez mais um caráter interdisciplinar, complexo, onde as áreas do conhecimento se mesclam, gerando problemas que exigem soluções desconhecidas e devem, portanto, ser desenvolvidas de maneira, digamos, não automatizada.

A criatividade, principal ingrediente da inovação, ainda não tem uma definição formalmente aceita, nem pode ser compreendida em sua integralidade. Não se sabe ao certo como funciona, tanto na mente das pessoas criativas como na interação de pessoas visionárias. Infelizmente, a cultura de gestão vigente não gosta de riscos, não se sente confortável com a imaginação, o olhar diferente, pois isso tende a fugir de seu controle. Para evitar essa sensação que lhes é desagradável, gestores tradicionais exercem seu poder para o controle, matando a criatividade. Assim, o país continua ouvindo acordes totalmente consonantes e melodias cuja sequência se pode prever. E a bossa nova, com seu jeito "desafinado" e imprevisível, prossegue confinada aos ouvidos de quem sabe ouvir.

sábado, 12 de março de 2011

O casamento entre a ciência e a tecnologia

A brilhante matéria do economista Claudio de Moura Castro na Revista Veja de 09 de março de 2011, intitulada “a freirinha e o rabino”, e que discorre sobre as inter-relações entre o desenvolvimento científico e o tecnológico, pode ser resumida pela frase escolhida para destacar o texto: “Alimentar a tecnologia com ciência é como tentar promover o namoro da freira com o rabino. Eles professam crenças diferentes, custosas de conciliar”. O autor realmente foi muito feliz na analogia, pois as estatísticas comprovam o abismo existente entre o grande desenvolvimento da ciência brasileira nos últimos anos e seu pífio desempenho no contexto tecnológico.

Após ter lido, apreciado e refletido sobre o texto, peguei-me lucubrando sobre outros tipos de comparação entre ciência e tecnologia, focados no desafio que é construir a ponte sobre o abismo que separa esses dois mundos. Meu primeiro questionamento se deu quando percebi que o namoro entre uma freira e um rabino é algo que contradiz tudo aquilo de que se espera. Ao contrário disso, namoros e casamentos entre pessoas são esperados no aspecto geral na sociedade. Não apenas isso, eles são celebrados e ritualizados como verdadeiras heranças da história familiar humana, e tidos como base da sociedade.

A ciência e a tecnologia deveriam, de forma semelhante, casar-se e ser felizes, com toda celebração e rito, cumprindo as expectativas da sociedade. Entretanto, as estatísticas do IBGE dizem que grande parte dos casamentos acabam em divórcio, fato esse percebido nitidamente em nosso dia a dia. Percebi então que as inter-relações da ciência e da tecnologia poderiam, sim, ser racionalmente comparadas com àquelas relativas ao casamento em nossa sociedade.

Grande parte de nossas tentativas sistematizadas de unir a ciência e a tecnologia em programas e empreendimentos podem, analogamente ao casamento, acabar em dissolução definitiva. Faz parte do jogo. Porém há tentativas que certamente se sustentarão, produzindo filhos e, quem sabe, novas e vitoriosas gerações. O grande desafio não está em minimizar o risco de fracasso, mas sim maximizar a qualidade das tentativas bem-sucedidas. Quando se fala em inovação, produto natural do investimento em ciência e tecnologia, a eliminação do risco está fora de cogitação. O que está em jogo é justamente a tentativa, a experimentação, a mente aberta, o pensamento divergente, o agir desalinhado. Não há desenvolvimento sem mentes que pensam diferente.

As empresas brasileiras sofrem particularmente desse mal, a saber, o de matar a criatividade mediante processos de gestão inexoráveis, muito bem implementados, cujo objetivo é o correto funcionamento dos negócios e a consequente sobrevivência da empresa. Talvez seja por isso que as empresas brasileiras estão acostumadas com a luta pela sobrevivência. Se dessem lugar à criatividade e investissem na inovação, provavelmente não precisariam mais lutar para sobreviver.

O risco, a experimentação e o pensamento divergente deveriam ser prática comum nas empresas que têm como alvo inovar e contribuir com a sociedade não apenas com produtos padronizados, mas também com a oportunidade de desenvolvimento sustentado, que pode trazer os melhores frutos e benefícios sociais.

Unir a ciência e a tecnologia exige muito mais do que um processo sistematizado. Não estou com isso dizendo que a sistematização não seja necessária. Sim, ela é necessária justamente para que se consiga alcançar um diferencial sustentado. Entretanto, não se pode confiar inteiramente na sistematização, mesmo que ela tenha sido fruto de uma grande inovação. Não importam as circunstâncias, viver dos frutos alcançados e das glórias do passado é uma grande armadilha. Muitas empresas e muitas pessoas já sucumbiram nesse pensamento. Quebrar o que está estabelecido continuará sendo a única maneira de questionar, de pensar o diferente, de criar e, consequentemente, de inovar.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Volta às aulas de sempre

A volta às aulas é uma época peculiar, pois nos traz à mente a reflexão sobre como somos educados em nossa sociedade. Gostaria de poder avaliar o verdadeiro índice de aproveitamento das pessoas em seu longo caminho de capacitação para a vida, pois o sistema vigente continua preconizando a compreensão de fenômenos ou o conhecimento sobre determinada disciplina de forma isolada. Lembro-me das aulas de matemática, onde éramos ensinados a resolver uma conta ou, no máximo, um problema proposto que descrevia uma simples atividade do dia-a-dia. Jamais nos ensinaram a enxergar o que queriam dizer certas equações, o que havia por trás do mecanismo de resolução de um problema. Fomos criados para um mundo mecanicista.

Esse tipo de educação se reflete na maneira com a qual o país, mediante a atuação de suas empresas, busca criar valor e se desenvolver. Tudo gira em torno de resolver um problema pontual. Gestores estão acostumados a analisar números em suas planilhas e a definir metas neles baseadas. Tudo muito simples, tudo muito direto, tudo muito mecânico. Dessa maneira, preservamos nossa cultura de fazer sempre mais da mesma coisa, de imitar as empresas criadoras de países líderes, de nos restringir ao mundo operacional.

Por que? O motivo é simples. Durante todo o tempo que passamos na escola, pensar era motivo de punição. Criar era considerado rebeldia, desobediência às regras. Avaliar o desempenho de um aluno se baseia na capacidade que este tem de responder o que se quer que seja respondido. Fomos ensinados a responder perguntas óbvias, para as quais todo mundo sabe a resposta. Não fomos ensinados a fazer as perguntas. Fazer perguntas está reservado aos pensadores, aos sábios.

A revista BusinessWeek, da Bloomberg, publicou a lista das 50 empresas mais inovadoras de 2010. A pesquisa contou com a colaboração de importantes entidades, tais como o Boston Consulting Group, BCG-ValueScience, Reuters, Compustat e a própria Bloomberg. A pesquisa obteve alguns resultados comuns com outras realizadas sobre o mesmo tema. Todas elas concordam que os primeiros lugares estão reservados a empresas tais como a Apple e o Google. Outra característica comum entre as pesquisas diz respeito à nacionalidade das empresas inovadoras. Na pesquisa da BusinessWeek, a lista das 50 mais inovadoras inclui 22 dos Estados Unidos, 5 do Japão, 4 da Grã-Bretanha e da China, 3 da Alemanha e Coréia do Sul, 2 da Índia, 1 da Espanha, Canadá, Finlândia, Suiça, Itália, Taiwan e Brasil. A representante brasileira na lista é a Petrobras, na posição 41. De acordo com essa lista, portanto, dentre os países chamados “BRIC”, o Brasil ainda ocupa o terceiro lugar. É claro que essa lista não significa a verdade absoluta sobre a capacidade de inovação de um país, mas é considerada um índice importante, que pode ser usado como subsídio para análises sobre a formação da sociedade e sua capacidade de se desenvolver.

Diversos fatores dificultam uma maior representatividade do Brasil na lista dos mais inovadores. Um dos principais tem a ver com a educação, que por sua vez fundamenta a base cultural de uma postura contrária à inovação, que impõe barreiras impactantes no que diz respeito ao despertar do espírito criativo, empreendedor e inovador das corporações do país. Aquelas que conseguem fazer seu diferencial confiam normalmente na visão pessoal de seus líderes, a quem se deve o mérito da conquista.

A experiência educacional dos profissionais, entre eles os dirigentes das empresas, impõe uma postura voltada ao controle, à obediência às regras, à punição e, portanto, e acima de tudo, à operacionalização. A gestão torna-se então o freio que procura com todas as forças matar as iniciativas de empreendimentos por parte das pessoas que sempre confrontaram a postura vigente, o status quo, para supostamente trazer a ordem nos processos operacionais. Fazendo isso, a rotina se torna privilegiada, e, com ela, a automatização daquilo que já é sabido. Isso é necessário? Sim, é claro que é. Porém não é suficiente para levar o país a adquirir o diferencial prometido em seu discurso.

As atividades voltadas à inovação não podem ser geridas pelos mesmos mecanismos que regem as atividades operacionais, pois são baseadas essencialmente na criatividade, experimentação e conhecimento. Infelizmente, entretanto, a maior parte dos dirigentes empresariais ainda não acordou para esse fato, e perdem com isso grandes oportunidades de consolidar seus negócios e neles sobressair. Falta-lhes o insight de confiar na capacidade pessoal de seus colaboradores. Falta-lhes a coragem de traçar diretrizes e confiar no poder criativo e empreendedor das pessoas, para a formação de equipes vitoriosas.

Fazendo um paralelo com o contexto infantil, o que acontece na prática é mais ou menos o seguinte: Genitores (dirigentes) nomeiam babás (gestores) para tomar conta das crianças (profissionais) no parquinho. Quando uma delas (empreendedor) tenta subir no escorregador pela rampa em vez de usar as escadas, a babá intervém, ensinando-lhe aquilo que parece lógico: Sobe-se no escorregador pelas escadas e desce-se pela rampa. Com isso, mata-se o verdadeiro divertimento, que consiste em experimentar o novo, o diferente, novas sensações. Não nos é permitido, desde crianças, experimentar aquilo que pode trazer novos valores. Nossas babás não deixam, pois nunca brincaram. Mas elas sabem como devemos brincar. Elas nos observam de longe, atentas para que tudo “corra bem”. Foram programadas para tal.

sábado, 5 de março de 2011

A crise econômica e o desenvolvimento - artigo da época da crise de 2009 (julho/2009) - mas os conceitos ainda valem



O dilema que o mundo empresarial enfrenta na atual crise econômica é notório. Empresas dos mais variados setores do mercado têm sido obrigadas a rever seu planejamento e redefinir suas estratégias de investimento. As ondas negativas geradas pela crise, provindas de direções e contextos diversos, impactam a sociedade como num efeito dominó. As posturas das empresas variam de acordo com seu campo de atuação e também com sua visão de estratégia. O caminho mais sensato para a maioria delas é focar na sobrevivência primordialmente, deixando as questões voltadas ao seu desenvolvimento em segundo plano. O que isso significa? Significa focar naquilo que é urgente e por ora esquecer daquilo que pode garantir a sobrevivência da empresa no futuro em médio e longo prazos.

Situações adversas como a que estamos vivendo no momento nos colocam em uma encruzilhada. O investimento equivocado em questões voltadas ao futuro longínquo podem impactar o investimento nas questões operacionais de tal maneira a marcar a derrocada de um empreendimento. Por outro lado, empresas que se limitam a focar apenas as atividades operacionais como forma de garantir a sobrevivência, interrompendo qualquer investimento de futuro ou de capacitação, podem selar seu destino de ser apenas mais uma no mercado, enquanto subsistirem. É justamente a adversidade que pode mudar o curso do mercado, proporcionando a possibilidade de algumas empresas despontarem como potência e determinando a queda de outras que outrora eram inabaláveis em sua posição de liderança de mercado.

Nossa postura perante essa situação é, portanto, crucial na determinação de nosso futuro. Mais do que qualquer outra coisa, é hora de parar e pensar, promover a criatividade para a geração de novas soluções, tanto de produtos quanto de metodologia. É hora de planejar, e talvez até replanejar. É hora de olhar as coisas sob um ponto de vista alternativo. É hora de se perguntar por quê. É hora de redefinir o direcionamento do empreendimento, de forma a não só garantir sua sobrevivência como também de aproveitar a oportunidade, gerada pela adversidade, para adquirir um significativo diferencial competitivo. Apenas uma visão empreendedora, criativa e bem fundamentada poderá alcançar esse sucesso. Apenas uma postura ousada poderá transformar a tão temida crise em uma fonte de novos resultados.

Muitos empreendimentos conquistaram, nessas condições, importantes vitórias frente ao mercado. Algumas delas, entretanto, resignaram-se com o diferencial alcançado, e relaxaram assumindo que a vitória parcial fosse suficiente para lhe garantir o futuro. Algumas outras vieram inclusive a sucumbir perante um mercado dinâmico e extremamente competitivo, mesmo tendo estado à frente de sua concorrência pelo tempo que a sustentabilidade de suas inovações lhes permitiu.

É provável que o efeito da conquista de um diferencial seja similar ao efeito ocasionado pelas artimanhas negociais que nos levaram à atual crise financeira. Esse efeito nada mais é do que a falsa ilusão de que as conquistas são mais sustentáveis do que realmente são. Em um mundo em constantes mudanças, tanto em termos de oferta quanto em termos de demanda, confiar totalmente em um passo bem dado pode significar a derrocada definitiva. A sustentabilidade da inovação só é garantida quando o pensamento que a rege consiste em torná-la obsoleta. Para ser sustentável, a inovação deve estar constantemente se sobrepujando.

Por isso, torna-se essencial não apenas desafiar a crise com um novo olhar sobre o mercado como também adquirir uma postura de constantemente lutar para que a vantagem competitiva alcançada graças a esse novo olhar se reduza a zero. O futuro pertence aos que hoje enxergam além, mas o sucesso definitivo pertence aos que consistentemente questionam sua própria visão.

sexta-feira, 4 de março de 2011

da invenção à inovação - artigo publicado na Gazeta do Povo - Opinião - 27/09/2008

Recentemente foi divulgado pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) o resultado do edital do Programa de Subvenção Pesquisador na Empresa, que contava com uma verba total de R$ 60 milhões. O objetivo da carta-convite era incentivar as empresas a empregarem pesquisadores que desenvolvam projetos que possam gerar inovação. Em linhas gerais, projetos aprovados no programa podiam contemplar a contratação de pesquisadores cujos salários e encargos seriam subvencionados em 40 ou 60%, dependendo da região geográfica.

Foram aprovados 37 projetos, segundo o site da Finep, que contemplavam a contratação de 132 pesquisadores, sendo 84 mestres e 48 doutores. O valor total dos projetos aprovados somou R$ 10,5 milhões, o que representa 17,5% do total disponível. Esses números mostram que ainda há um longo caminho a percorrer para que a indústria brasileira tome consciência de que a inovação gerada por meio de conhecimento especializado é um mecanismo importante para a conquista de diferencial competitivo sustentado e, em casos mais críticos, pode significar a própria sobrevivência de empresas no mercado inerentemente dinâmico que nos aguarda no futuro próximo.

No Brasil, existe uma barreira entre a academia e a indústria que faz com que, apesar de o país apresentar uma contribuição significativa na produção científica mundial, a dificuldade de transformar invenções científicas em inovações práticas se acentue cada vez mais. Com isso, o país perde, deixando de gerar dividendos, tanto em termos de experiência e conhecimento quanto em termos de benefícios à sociedade.

Existem programas de fomento à produção científica que inerentemente contribuem para acentuar essa barreira, uma vez que eles prescindem de mecanismos que incentivem o envolvimento das indústrias, dificultando a evidência dos resultados obtidos por meio da aplicação prática.

Esse edital é um esforço governamental para ajudar a indústria do país a acordar. Mas, afinal, o que falta para isso? Primeiro, é preciso quebrar o muro que separa os dois mundos, academia e indústria, tornando-o, se possível, um único empreendimento que gere conhecimento e, com ela, a inovação. Em países mais avançados, o número de pesquisadores atuando na indústria é muito maior, o que permite uma atuação convergente e em sintonia com a academia, trazendo maior equilíbrio e melhores resultados para a sociedade.

Em segundo lugar, é preciso que o país comece a pensar diferente no que tange à gestão empresarial. A conjuntura econômica vivida pelo país nos últimos anos contribui com um certo temor que a gestão das empresas têm em arriscar. Isso é natural, porém muito perigoso. Essa cultura levou o país a pensar a indústria essencialmente como uma entidade de linha de produção, onde não há espaço para o pensamento, para a criação de novas soluções. Seus empregados são pagos para cumprir seu horário e desempenhar determinada tarefa sem questionamentos. Sua gestão é baseada em métodos que vêm da época da revolução industrial, que preconizam a produção em série, a eficiência do operacional, o valor traduzido em números. Na era do conhecimento, esses conceitos devem não só ser questionados, como também colocados em xeque. As empresas não podem mais se dar ao luxo de confiar apenas nos métodos industriais, buscando tão-somente a eficiência operacional. Não há mais espaço para essa cultura, especialmente em determinados segmentos, os quais dependem muito do conhecimento e da inovação para alcançar sucesso e garantir a sobrevivência num mercado extremamente dinâmico.